Luís Duarte

Há um sítio no Porto, escondido numa garagem adaptada, onde o tempo passa de forma diferente: o Sais de Prata Lab & Studio é uma sala pequena, apertada, dividida ao meio: de um lado, a parte seca; do outro, a parte húmida. Dois ampliadores, tinas de revelação, rolos de negativos guardados em caixas de vários tipos, gavetas cheias de papel de impressão, de várias idades e tamanhos. E ainda provetas e pipetas, copos graduados, frascos de vidro com produtos químicos mais ou menos estranhos, mais ou menos coloridos, inodoros ou nem por isso. Luís Duarte entra ali, fecha a porta, liga a luz vermelha e põe música. “Pode vir uma bomba lá fora”, diz, “é capaz de tremer um bocadinho, mas eu não vou sentir.” Foi assim que aprendeu a fazer o que faz. E foi assim que percebeu que a fotografia analógica, para ele, nunca seria apenas um passatempo.
A história de Luís com a fotografia começa muito antes do Sais de Prata. Começa em Braga, onde nasceu, em 1971, e no seu pai, que gastava rolos a fotografar a família e os pores do sol. “Sempre me habituei muito a esta linguagem”, lembra, “quando nem sequer havia digitais.” Mas o momento decisivo surgiu em 1999: o pai ofereceu-lhe uma Canon A1 – analógica, claro – e ele começou a fotografar. Pouco depois, um concurso do IPF no Porto, uma maratona fotográfica, deu-lhe o primeiro prémio: um workshop de fotografia de três meses. Foi aí que tudo mudou.
Nos laboratórios do IPF, Luís descobriu a química. E a química, de certa forma, já vinha de trás: a mãe era técnica de física no ISEP, e ele crescera entre aquela alquimia. Acabou por se formar em Gestão de Empresas e depois em Gestão Financeira, e durante anos trabalhou na área. “Até que me fartei de trabalhar com o dinheiro dos outros”, conta. A fotografia, entretanto, mantinha-se como passatempo. Nas viagens que fazia com a mulher, três grandes viagens por ano – “trabalhávamos para viajar” –, passou do diapositivo a cores para o preto e branco. “Sabia que era mais fácil para mim fazer o processo todo”, explica. “E eu acho que é o mais engraçado nisto tudo: uma pessoa fotografar e depois levar o processo todo até ter uma prova feita num papel.”
Em 2016, a família mudou-se para a casa onde ainda vive. Como Luís fez questão de ter um espaço para ele, o projetista desenhou-lhe um cantinho na garagem. O Sais de Prata nasceu ali, naquele refúgio, mas só durante a pandemia é que se abriu ao mundo. “Pensei: ‘Se eu me sinto bem aqui, as pessoas também se vão sentir…’” Criou o site, abriu ao público. Hoje, não há sábado que não tenha um workshop de manhã. “Só não faço mais porque não tenho mesmo tempo…”
Os workshops são, para Luís, a materialização daquilo em que acredita. As pessoas trazem o rolo que gastaram; de manhã, revelam-no juntos; deixam secar, vão almoçar; à tarde, fazem a prova de contacto e ampliam as escolhas – o processo todo, num só dia.
Para o Luís, há uma distinção clara entre as duas partes do processo: a revelação é a parte mais importante – “se tu revelares mal, já ‘foste’, não tens fotografia para ampliar, ficas sem a memória” – mas é “uma seca”; a ampliação, essa é imaginação, é ali que se pode pôr contraste, tirar contraste, fazer máscaras, usar as mãos. “É o Photoshop analógico”, diz, rindo-se. E é ali que ele perde a noção do tempo. “Às vezes, deitava as filhas, vinha para aqui, ligava a luz vermelha. Entrava às dez da noite e, quando dava conta, eram umas cinco da manhã. Nem tinha dado por ela. Maravilha…”
O desligamento do tempo é, pois, uma das essências da fotografia analógica. A cultura do “já” não entra no processo. “Tens 36 fotografias no rolo, tens de pensar, não vais fazer 100 fotografias em disparo contínuo como fazes com uma digital.” É uma abordagem diferente, mais seletiva, mais lenta. E mais humana, acrescenta: “Eu lembro-me perfeitamente de quando fazia viagens. Chegava aos mercados e estava ali e falava com as pessoas. Abordava, às vezes nem fotografava, ou fazia uma ou duas”.
Tem também uma outra regra, que repete a quem o ouve: não revela logo os rolos que fotografa. Guarda-os numa gaveta, esquece-se do que lá está. “Para mim, até em termos críticos da fotografia, é muito importante não estar preso àquilo que eu fiz. Vou abordar e olhar para a fotografia pela fotografia em si e não pela emoção…”
Esse olhar estende-se também, naturalmente, ao trabalho que faz para outros. Já recuperou álbuns de família inteiros, ampliando negativos antigos para que as imagens pudessem voltar aos seus lugares. “São trabalhos lindíssimos de fazer”, diz, e mostra um: um álbum dos anos 1920, com retratos de família, onde as novas cópias se misturam com as originais. “Eram pais, eram tios, eram tudo. Este tipo de trabalho dá-me um gozo particular.”
E há uma fotografia que o fascina: é de 1918, sete pessoas posaram para um retrato que parece não fazer sentido: ninguém olha para a câmara, as posições são estranhas, os rostos indecifráveis. “Quando olho para isto, dá vontade de entrar por ali dentro, ir para lá, recuar um século para tentar perceber o que é que se passou. E isso fascina-me, estas coisas assim, estas histórias…”
Quando se pergunta ao Luís se se sente mais guardião ou mais explorador, a resposta é direta: “Guardião do passado. Posso inventar, posso fazer coisas diferentes, mas tudo numa base analógica.” É uma posição que assume com orgulho, mas também com alguma apreensão. “Para mim, é gratificante, mas também um bocadinho assustador, quando alguém me diz que chega aqui e vem de Lisboa fazer o workshop porque só me encontrou a mim…”
Sobre o nome do espaço, Sais de Prata, a resposta de Luís é simples: “Tem a ver com a base do negativo, a base de tudo isto. Os sais de prata são sensíveis à luz, é com eles que se faz a imagem.” E sobre o que faz ali, dentro do laboratório, tem uma imagem que gosta de repetir: compara-se com um artesão; o processo é o mesmo, mas as peças são únicas, “não há nenhuma igual.”
É essa a arte que pratica. Não a da reprodução infinita, a da imagem descartável, a do ecrã que se desliga, mas a da peça que se faz com as mãos, da ampliação que nunca é igual à anterior. E talvez seja isso que o Luís Duarte seja, no fundo: um alquimista de um tempo mais lento, um guardião dos sais de prata. Alguém que, quando fecha a porta do laboratório e acende a luz vermelha, faz do tempo um aliado e, da espera, uma forma de arte.

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