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Mais de um milhão de pessoas arriscaram tudo nesta travessia infernal. Federico Ríos Escobar, um dos vencedores World Press Photo 2025, mergulhou no coração da selva para documentar o drama de quem foge da pobreza e da violência. Conversa sobre coragem, resiliência e o preço da esperança.


No coração da densa selva do estreito de Darién, um dos corredores migratórios mais perigosos do mundo, entre a Colômbia e o Panamá, uma multidão de migrantes arrisca a vida em busca de esperança e dignidade. Nos últimos quatro anos, um milhão de pessoas, de todas as idades, puseram à prova os limites da condição humana, ao atravessar este território hostil, enfrentando situações extremas que redefinem as fronteiras da resistência e dão novo significado a palavras como coragem, resiliência e determinação.

O fotojornalista colombiano Federico Ríos Escobar, vencedor do World Press Photo em 2025, documentou as extremas dificuldades e os sonhos de homens, mulheres e crianças cujas histórias tendem a ficar incógnitas. Mergulhou nas profundezas do Darién e acompanhou de perto uma crise humana marcada pela violência, pela exploração e pela incerteza, e que impõe provas físicas e emocionais extremas. É uma narrativa poderosa que transcende a mera documentação, obrigando-nos a ir além do que vemos à superfície, desafiando-nos a um caminho de compreensão mais profundo.

São mais de 100 quilómetros de implacável e perigosa selva, uma terra de ninguém sob o controlo de um grupo armado que faz negócio com os sonhos alheios. Histórias de luta física e resistência emocional, de bravura e vulnerabilidade humana, numa tragédia coletiva que não se resume à fronteira entre a América do Sul e a América Central, espelhando dinâmicas globais de desigualdade e deslocação forçada. Estes migrantes não levam consigo apenas a esperança de uma vida melhor, mas também as cicatrizes de um passado doloroso, feito de pobreza, perseguição ou violência.

O que originou este teu trabalho na selva do Darién?

A principal motivação foi um interesse jornalístico, o compreender o enorme fluxo de migrantes que atravessava da América do Sul para a América Central. Quando comecei a ler que milhões de pessoas estavam a cruzar esta selva, percebi que se tratava de algo de extrema importância para documentar. Fui para lá com uma equipa do The New York Times. Só entre 2021 e 2024, cerca de um milhão de pessoas atravessaram a selva em direção ao norte – é um número absolutamente tremendo. Este trabalho também nos leva a fazer uma radiografia das condições horríveis destas pessoas nos seus países de origem.

No terreno, qual foi o teu primeiro impacto?

Foi muito poderoso perceber quantas pessoas estavam dispostas a arriscar a vida para chegar aos EUA. Vinham de países e crises muito diferentes: China, Afeganistão, Índia, Irão, vários países africanos como Somália ou Mali, e praticamente de toda a América Latina – Colômbia, Equador, Peru, Bolívia – mas sobretudo da Venezuela. Estavam dispostas a enfrentar uma viagem extremamente dolorosa e de alto risco em troca de algo básico: um teto, pão, educação e trabalho.
Para quem não faz ideia do que é o Darién, o que significa atravessar esta região?
O Darién é uma selva com cerca de 100 quilómetros de comprimento, sem estradas nem caminhos, onde não há ninguém a quem pedir ajuda, e há muitos anos sob o controlo de um grupo armado ilegal, as Autodefesas Gaitanistas da Colômbia. É um lugar inóspito, sem acesso a comida, água ou assistência. Muitas pessoas – não sabemos quantas – perderam a vida durante a travessia. E não é fácil falar com quem as acompanhava…

Este foi um trabalho pontual ou exigiu várias incursões?

Fomos muitas vezes. Começámos em 2021 e a última vez que lá estive foi já em 2026. Cruzámos a selva inteira em várias ocasiões e, noutras, entrávamos apenas por determinados troços. Atualmente, após as eleições nos EUA e a tomada de posse de Donald Trump, diminuíram muito as travessias de sul para norte, até porque o Panamá tentou fechar essa rota.

Que diferenças se verificam entre o estado de espírito das pessoas no início e no fim desta travessia da selva?

À entrada, as pessoas não sabiam verdadeiramente o que as esperava. Dentro da selva havia muito sofrimento, dor e exaustão, mas também coragem e esperança. À saída, ouvia-se muitas vezes a mesma frase: “Não é fácil, mas consegues.” Recordo que, muitas vezes, esta migração é um processo que demora dois, três, quatro anos, até se atingir os EUA.

Nas tuas imagens vemos pessoas de todas as idades. Viste muitas famílias?

Sim. Havia crianças muito pequenas – vimos bebés com apenas dois meses – e também pessoas muito idosas. Lembro-me de uma mulher afegã com mais de 80 anos, que mal conseguia andar. Muitas vezes eram famílias inteiras a atravessar juntas.

Como era com as crianças?…

Poderia estabelecer um paralelismo com o filme italiano A Vida É Bela, mas, infelizmente, o que vi foi exatamente o contrário. Crianças obrigadas a serem adultos. Desde muito pequenas, condicionadas a tomar atitudes de adulto, a cuidar de si e da sua família, a arranjar comida, a ajudar o mais possível, porque a selva é inclemente e não se importa se és menor.

Quanto tempo costuma demorar a travessia do Darién?

Habitualmente, demorava oito a dez dias. Em 2024, o tempo foi encurtado. O grupo armado decide o trajeto e nível de dificuldade, percebendo que quanto menos tempo demorar, mais fácil é receber o mesmo dinheiro, com menor responsabilidade. É um mero exercício económico. Contudo, quando chegas ao lado panamense, ficas por tua conta… Ninguém faz a travessia a solo; os migrantes são agrupados. Na selva, muitas vezes sem sequer conseguires ver o horizonte, estás perdido. E isso significa que dificilmente sobrevives… é quase certo que vais morrer. Muitas dessas pessoas vêm de outros continentes. Porque escolhem esta rota? Países da América Central e os EUA têm regras de vistos muito rígidas. Para cidadãos da China, Índia, Afeganistão, Irão ou países africanos, obter um visto é extremamente difícil. Em contrapartida, várias nações da América do Sul permitem entradas mais fáceis. Por exemplo, após a retirada das tropas americanas do Afeganistão, muitos saíram através do Irão, Catar e Turquia para rumarem ao Brasil, com vistos humanitários. A partir dali, atravessaram o continente por terra até ao Darién. Já os chineses usavam sobretudo o Equador, devido a acordos de vistos.

Quais eram as principais causas de morte no Darién?

Sobretudo o afogamento. Os rios podem encher-se subitamente devido às chuvas e tornam-se impossíveis de atravessar. O grupo armado controla a travessia como um negócio: cobra cerca de 375 dólares (320 euros) por pessoa em troca de “proteção”. Acontece que há pessoas que não conseguem angariar esse dinheiro e, por isso, não podem atravessar. Não temos conhecimento de migrantes mortos diretamente por esse grupo, mas do lado panamense houve relatos de roubos, violações e assassinatos. Alegadamente, e pelo que ouvi de migrantes, a polícia panamense está ligada a essas ilegalidades, mas não há provas irrefutáveis sobre isso. O grupo armado ilegal controla a travessia há muitos anos. É um negócio, o que significa que, cuidando disso, o grupo ameaça, intimida, mas, do que ouvi falar aos migrantes, nunca matou ninguém. Sabemos que houve outros assassínios na zona, talvez cometidos pelo grupo armado, mas não foi de migrantes, antes de habitantes que talvez quisessem uma parte do negócio da migração, e o grupo não o permitiu.

Como se fotografa o sofrimento sem o transformar em espetáculo?

Fazendo um trabalho jornalístico honesto, limpo, humano e transparente. É fundamental compreender a dor e o sofrimento das pessoas e tentar preservar ao máximo a sua dignidade, pois estão a passar pelos dias mais difíceis das suas vidas. No meu caso, o Darién permitia tempo e diálogo: caminhávamos juntos, conversávamos, eu explicava quem era e por que estava ali. Isso cria uma relação mais íntima e humana e fomenta uma espécie de acordo e aceitação, permitindo-me aceder de outra forma à sua dor mais íntima. O mais difícil é o controlo emocional, a empatia que se pode criar com as pessoas e fomentar algumas relações mais próximas e depois não se saber sobre o seu futuro. Felizmente, ainda estou em contacto com bastantes pessoas e há muitas histórias com finais felizes.

Houve fotografias que decidiste não publicar?

Sim. Fotografei uma mulher afegã muito idosa, completamente exausta, em abundante suor a subir uma colina. Caminhava com a ajuda de paus para se apoiar, como se fossem bengalas, as pessoas ajudavam-na no seu cambalear, pois não conseguia andar bem. Não falava espanhol nem inglês e, na verdade, nem tinha energia para comunicar, estava realmente exausta. Era uma imagem muito poderosa para narrar o drama da migração, uma idosa do Afeganistão a atravessar a selva, mas o neto veio ter comigo e pediu-me que não a publicasse, por vergonha e respeito pela avó e pela família, em grande número nesta travessia. A humidade da selva obrigara-a a retirar o lenço do islão, pois sufocava no cansaço e exaustão, e isso não era bem-visto na sua cultura: seria uma vergonha para a família. Sem necessidade de espezinhar a dignidade da avó e de toda a família, apaguei imediatamente a fotografia. Foi um momento importante para perceber que o diálogo e a dignidade estão acima de qualquer imagem.



Se pudesses escolher uma fotografia para colocar no gabinete de um decisor político, qual seria?

Para mim, é muito importante não pensar no meu projeto fotográfico sobre o Darién como uma fotografia, mas como um conjunto de imagens que completa a minha visão do Darién. Ainda assim, destacaria a fotografia de Luis Miguel Arias, um venezuelano, com a filha Melissa, de quatro anos. Ele estava exausto, sentado, com a testa apoiada num tronco, no segundo dia de travessia. Não queria que a filha visse a sua expressão. Começou por emigrar com a família para a Colômbia, mas, depois de mais de um ano de tentativas de se estabelecer profissionalmente, optou por tentar os EUA. Felizmente conseguiu: trabalha, a mulher também tem emprego, os filhos vão à escola. Ele apenas procurava uma oportunidade…

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