Sagu, a força do gesto
Cada batida levanta pó e reduz a matéria, enquanto calcanhares e dedos travam o monte de fibra acumulada para que cada gesto seja certeiro. É neste movimento repetido, entre o tronco da palmeira e o corpo que o trabalha, que começa a história de uma travessia por Raja Ampat, na Papua Ocidental.
Atravessar o arquipélago de Raja Ampat, na Papua Ocidental, é navegar por camadas à procura da ilha dentro da ilha dentro da ilha. A travessia – ao longo de cerca de um mês – que aqui vos relato toma o nome das palmeiras tropicais de sagu, alimento-base para muitas das comunidades remotas que encontramos pelo caminho. Sagu é o amido extraído do tronco destas palmeiras, alimento tradicional para diversas comunidades.
Nestas ilhas não existem ferry-boats regulares, estradas ou portos. Para muitos, barcos modestos continuam a ser o único meio de transporte. Na ilha de Batanta, o crepúsculo cai sobre a maresia e os corais. À superfície, além dos mangais, David colhe vagens das árvores contorcidas. Em cada gesto, as mãos do capitão sugerem uma nova direção e lançam sementes às ondas. Estas águas abrigam cerca de 75% das espécies de corais do mundo, fazendo deste um dos locais mais biodiversos do planeta.
Durante a travessia, era preciso vigiar a proa. De pé, atento a troncos e detritos à deriva que podiam bloquear o motor, David navegava com destreza, enquanto, acima dele, as nuvens desenhavam silhuetas que lembravam mantas oceânicas, com as suas envergaduras deslumbrantes. Ao perguntar-lhe a origem da alcunha “Snonbepur”, David explicou-me, sorrindo, que era um apelido carinhoso para “um miúdo pequeno”, mantido até à idade adulta. Talvez isso explicasse o entusiasmo com que me levou, em apneia, a observar as mantas que se reuniam num único ponto do recife. O capitão mantinha um olhar de criança, eterno, que descobre o mundo como se fosse sempre a primeira vez.
Seguimos, certos de que a água é o único eixo de circulação possível. As forças naturais presentes no arquipélago funcionam como escudo contra o progresso ocidental e moldam também o próprio tecido animal e vegetal.
Na ilha de Misool, em lagos escondidos que outrora foram braços de mar, centenas de alforrecas da espécie Mastigias papua movem-se lentamente. Privadas de predadores ao longo de gerações, perderam quase por completo a sua capacidade de ferroar e passaram a viver em íntima relação com a luz. No interior dos seus corpos habitam algas microscópicas que lhes fornecem energia. Ao meio-dia, com o sol no ponto mais alto, estes corpos gelatinosos transformam-se em autênticos astros reluzentes.
As vagens dos mangues, tais como medusas, flutuam nas marés, semeando florestas costeiras que protegem as comunidades insulares.
Chegados à aldeia de Magey, um rapaz empoleirado num ramo contorcido sugere um novo gesto, uma ideia impressa na correria das crianças que encontrei rio acima. Aqui, o contacto com a natureza e as atividades recoletoras fazem parte do quotidiano e das brincadeiras.
A aldeia onde estamos é formada por filas de casas de madeira, uma igreja protestante, uma escola e alguns edifícios de cimento, relutantemente ocupados. O pontão de madeira, com tábuas soltas e ângulos tortos, persiste como espaço social: reúne mulheres que separam o peixe, homens que cuidam das canoas tradicionais e crianças que, entre correrias, aprendem inglês numa aula organizada pelo professor Ahmad, voluntário oriundo de Bornéu.
Em Magey, somos recebidos e acolhidos por Mary, Salomon e Oktovina, mais conhecida por “Vin”, numa casa tradicional. Estamos perante uma família matbat, os descendentes da tribo cujo nome se traduz literalmente por “povo da terra”.
Os dias que se seguiram foram dedicados a conhecer o ritmo de uma aldeia, sem água canalizada, eletricidade fidedigna ou comércio desenvolvido. As crianças, cujas brincadeiras imitavam algumas tarefas dos adultos, não hesitavam em praticar o seu inglês sempre que possível. Juntos, fomos ver as hortas, onde se plantam frutas e legumes, e partilhámos refeições numa comunhão ao nível do chão, modesto, sem mobília.
Os planos estavam traçados. Nos primeiros dias, apoiámos um projeto de voluntariado dedicado ao ensino de inglês. Depois, “Vin” e o seu pai, Ayub, patriarca da comunidade, levar-nos-iam até Ingata, a aldeia originária do povo matbat. Raja Ampat lembrava-nos, mais uma vez, que o único caminho era o da água.
Certa tarde, ainda no limite de Magey, a maré baixa revelou-nos um caminho parcialmente submerso, até então inexplorado, que conduzia à aldeia vizinha de Gamta. Deste lado da ilha, longe da igreja protestante de madeira, os mangais ecoavam os cânticos do Ramadão. Numa das zonas mais remotas do mundo, como seria possível que duas aldeias coexistissem lado a lado, com fés tão distintas?
Rezam as histórias dos mais antigos que, num tempo em que os lugares ainda não estavam divididos por aldeias, existiam apenas dois irmãos: Magey e Gamta. Viviam em harmonia, na mesma tribo, no coração da floresta de Misool. “Vin” conta-nos que, certo dia, os caminhos dos irmãos se afastaram: “O povo de Magey escolheu viver na floresta porque tinha de proteger os direitos e a terra ancestral, enquanto os seus irmãos, em Gamta, escolheram viver na costa.”
Esta tradição oral dos matbats não representa necessariamente uma separação, mas antes uma divisão complementar de responsabilidades herdadas dos antepassados: a costa, que permitia o contacto com o exterior, ocupada pelo povo matlow; e a floresta que, por sua vez, concede proteção ao território matbat. A resposta completa talvez estivesse na origem, em Ingata. Para a encontrar, seria preciso subir o rio.
Os preparativos da viagem decorreram no único cais da aldeia, diante das casas. Uma mulher idosa, de olhar matriarcal, distribuía conselhos e críticas, sobretudo às crianças, que embrulhavam com dificuldade os mantimentos. “Vin”, Mary, Ferdinand e Ahmad foram alguns dos que nos acompanharam, com a bênção do chefe da tribo, Ayub.
Ao longo da viagem de barco, a paisagem exuberante da floresta preenchia o horizonte espelhado nas águas. Centenas de palmeiras de sagu surgiram nas margens abundantes.
A família Matbat começa por cortar e segmentar o tronco, num rito em que mãos, braços e pernas se confundem com a própria estrutura vegetal. Com o auxílio de picaretas, o conteúdo fibroso é extraído e triturado. Cada batida levanta pó e reduz a matéria, enquanto calcanhares e dedos travam o monte de fibra acumulada para que cada gesto seja certeiro. A força motriz vem do tronco e dos braços.
Durante o processo, a maior parte da palmeira é aproveitada. As hastes que ligam as folhas ao tronco, espessas e resistentes, são transformadas em cestos improvisados para transportar a fibra. Outras partes servem na construção de um dique artesanal junto ao riacho. Nesse local, a fibra é prensada e lavada com água corrente, permitindo a separação do amido, que depois se precipita no fundo da haste vegetal. O sedimento espesso é posteriormente cozinhado.
Após a colheita do sagu, chegaríamos finalmente à antiga aldeia de Ingata. Para nosso espanto, já não havia casas. As construções, feitas de material orgânico, cederam rapidamente ao estado selvagem da floresta. Este local funciona hoje em dia apenas como um acampamento, um lugar para trabalhar e revisitar o passado entre tarefas de colheita. Finalmente, reunimo-nos para cozinhar. Tradicionalmente, o sagu é preparado de várias maneiras. Quando misturado com água a ferver, transforma-se em papeda, uma papa espessa, elástica e translúcida, de textura viscosa.
Durante os preparativos, “Vin” afirma que “a fonte de alimento para muitas famílias vem do rio. O sagu sustenta a economia da comunidade”. Para os matbats, e por extensão, os matlows, colher nunca é um ato isolado. O sagu cresce ao ritmo da espera, e outros frutos obedecem a períodos de proteção herdados dos antepassados.
Os anciãos de Magey e Gamta celebram o Som, uma cerimónia ligada à colheita de vários frutos como o langsat. Este rito define quando a abundância pode regressar às mãos das pessoas. Durante esse tempo, bens como o langsat, o cempedak ou até o pepino-do-mar permanecem intocados, garantindo que a floresta e o mar continuem a dar.
Estas regras fazem parte do Adat, um sistema vivo que regula a relação entre as pessoas e a terra. Não figura propriamente uma lei escrita, mas um acordo praticado diariamente através de gestos e hábitos. Ao longo da história, o Islão e o Cristianismo, religiões respetivas de cada uma destas aldeias irmãs, não substituíram as crenças mais ancestrais, mas integraram-se num tecido social já moldado pelo território. A harmonia nasce de uma sobreposição silenciosa.
A vida em Magey, tal como a conhecemos hoje, é fruto das escolhas das gerações anteriores. A antiga aldeia de Ingata foi abandonada e as famílias deslocaram-se a jusante, rumo a Magey. Como explica “Vin”, “se não se tivessem mudado para Magey, as gerações anteriores não teriam conseguido conhecer o mundo da educação. Por isso, os nossos avós e antepassados escolheram deslocar-se até à costa.”
Chuva, suor, força e sustento. Num momento de pausa, longe das tarefas físicas e do pó do miolo da palmeira, alcançamos finalmente uma cascata. O líder dos matbats repousa diante das águas cristalinas da floresta. Estamos perante um guardião humilde de uma cultura que precede as religiões monoteístas.
A água corre em Raja Ampat e a vida, iniciada em Ingata, continua. O sagu, além de sustento, é identidade, é o elo entre o ser humano e o seu ambiente, uma memória coletiva perpetuada pelo trabalho manual. Há gestos humanos invariavelmente mais s da natureza.



