Ao que parece, o mais antigo fragmento de papel é chinês e data do século II antes de Cristo. Desde então, temo-lo connosco, sem falhas nem sobressaltos. O papel é uma certeza, uma certeza com milhares de anos. No dia em que desaparecer, morreremos nós também.
Quando escolhi insonorizar um espaço onde me protegesse da erosão dos ruídos, pensei numa casa de papel. Chamei-lhe biblioteca por amor ao que é frágil. O papel é uma extensão mensurável da memória, permite mensurar as ideias, tocar as palavras, organizar o mundo na medida da desordem de todos os sistemas. O anjo da história é de papel.
Ler em papel é contemplar. Ler uma revista de viagens em papel é prolongar o espanto e estimular a experiência sensorial que se agarra à memória, como o cheiro da beira-mar ao nascer do dia. Ler uma revista de viagens que se chama Primitiva é convocar a essência do que é humano a cada virar de página.
Com quantas árvores se faz uma folha de papel? Escrever é revelar, partilhar, por vezes denunciar, resistir ao esquecimento e pensar um futuro.E o papel a principal testemunha da própria existência. O papel imortaliza o artista, o escritor, o pensador, permitindo-nos o acesso a toda essa memória da Humanidade durante séculos e que ainda está aí para o futuro. Sem o papel, não teríamos literatura. Nem os planos de Da Vinci. Os esboços de Vermeer. As fórmulas de Einstein. As partituras de Bach. Toda a obra de Shakespeare. E o que seria de nós?
O papel é o lugar onde as viagens nunca acabam. Quem lê um livro de viagens também embarca nele, sentindo as cores, os cheiros e os sons que ganham vida nas palavras impressas. Gosto de livros de viagem precisamente por essa capacidade de propagar emoções, que se multiplicam na descoberta de novos lugares, nos quais o viajante descobre a complexidade do mundo, aprende a gostar e a respeitar a diferença, a interiorizar a beleza da tolerância e a reagir ao inesperado com mais tranquilidade e sensatez.