Onde o carvão enterra os homens vivos
Esfregam as mãos, mas a poeira negra permanece; atiram uma pedra ao chão e o pó levanta-se, preto, no ar. Em Jerada, no Nordeste de Marrocos, o horizonte tem cor de antracite, escurecido pelo carvão que cobre a terra, escurecido pelo amanhã que leva à morte. Nas minas clandestinas, homens descem diariamente ao subsolo. Presos por um fio, escavam as próprias sepulturas em troca de pão, teto e algum fôlego.
Um mar de terra preta – assim se descrevem os arredores da cidade de Jerada, no Nordeste de Marrocos, onde as baixas casas quadradas parecem afundar-se numa paisagem dominada por uma montanha negra, tão antiga e tão alta como a extração de carvão na vida de quem ali mora. Um remblai, como lhe chamam (aterro, em francês), acumula décadas de resíduos de minério, rochas e terra, desde a abertura das minas nos anos 1930, quando o país ainda se encontrava sob domínio colonial francês.
Quase um século depois, o tecido fino das luvas não impede que o carvão escuro se entranhe nas mãos de Youssef, um jovem mineiro de 25 anos. Sobre os ombros traz a herança de um pai que trabalhou toda a vida no subsolo, nas minas que acabariam por encerrar oficialmente nos anos 1990, deixando cerca de 9000 pessoas desempregadas. Muitos partiram. Para quem ficou em Jerada, uma das cidades mais pobres de Marrocos, o fecho não significou o fim do trabalho. Sem outra forma de subsistência, quem nasceu mineiro não teve escolha: continuou a ser mineiro. Agora em galerias clandestinas, abertas na mesma terra preta, o carvão tornou-se símbolo de sobrevivência, mas também de morte.
O pai de Youssef foi um desses homens. Da antiga central de mineração passou para as minas ilegais e levou consigo o filho, que teria 14 anos na altura. Anos a fio debaixo de terra deixaram-lhe marcas profundas no corpo. As poeiras de sílica libertadas ao cortar a antracite – a forma mais pura do carvão mineral – comprometeram-lhe os pulmões de forma permanente e, depois de reformado, o ar chega-lhe com esforço, auxiliado por uma botija de oxigénio. Entre os tratamentos adequados e o pai de Youssef existem quilómetros de estrada até às grandes cidades, tais como Casablanca. Sem meios para encurtar essa distância, o jovem mineiro continuou a descer ao subsolo para ajudar a família, mesmo depois de o corpo lhe ter dado os primeiros sinais de doença. Onde herdou o trabalho, herdou também as suas consequências.
Nas minas clandestinas desce-se a poços com 15 a 40 metros de profundidade, sem arnês. Entre a escuridão do fundo e a luz da superfície, apenas uma corda, uma grua manual e uma mangueira por onde passa oxigénio sustentam a descida. As galerias, escavadas manualmente com ferramentas rudimentares, não têm saídas de emergência. Os capacetes são turbantes de malha com uma pequena lanterna – para todos, a única luz ao fundo do túnel. O carvão ascende em frágeis sacos de serapilheira. Um gancho preso no entrançado do tecido e uma manivela rodada por mãos calejadas erguem quilos de minério. Bastam dois ou três segundos para que o saco se rasgue e caia no vazio, ameaçando quem está no fundo. Nas pausas, a poeira da sílica mistura-se com o fumo de alguns cigarros.
Das profundezas do carvão regressa Walid. Mais de dez anos a suportar o peso do ofício gravaram-lhe o rosto com rugas decalcadas pelo preto do carvão, que percorre todo o seu corpo. O suor escorre-lhe, negro, depois de mais de oito horas seguidas no subsolo. Quando Walid sobe, vê a floresta árida que cerca as minas, mas nem todos chegam a este momento. Na cidade, ecoa o nome “minas da morte”, lembrança dos pais, filhos e irmãos que ali se perderam.
São poucas as histórias que chegam aos jornais. Hamid recorda que, em 2022, três pessoas morreram, sufocadas pelo dióxido de carbono que se acumula nas galerias de carvão. Anos antes, em 2017, a perfuração acidental de um lençol de água fez inundar uma mina e dois irmãos, de 23 e 30 anos, faleceram. A tragédia desencadeou tumultuosos protestos em Jerada, exigindo segurança, direitos e dignidade. Muitos perdem a vida por inundações, explosões, desmoronamentos ou escassez de oxigénio. A falta de escolha não atenua o medo, lembra Hamid: “Cada vez que entram na mina, os mineiros despedem-se das suas famílias, porque pode ser a última vez. Trabalham com medo, mas nunca com esperança.”
Um teto sobre a cabeça e “pão, açúcar e comida” na mesa são os ganhos frágeis de um trabalho duro. Todos os dias, camiões de intermediários, que não se sabe bem quem são ou a quem pertencem, entram em Jerada para recolher o carvão ilegal. Carregam os sacos pesados e, em troca, deixam nas mãos de Youssef, de Walid e de tantos outros algumas dezenas de dirhams – entre 60 e 120 por cada dia de labuta, o equivalente a cinco a 11 euros, confirma Hamid. Assim sobrevivem cerca de 90% dos habitantes da cidade. O carvão segue depois para mercados mais distantes, onde o seu valor se multiplica. Quem desce ao subsolo fica com o pó; quem não desce, fica com o lucro.
Na paisagem, sobretudo quando a noite cai, a central de produção de energia elétrica ergue-se como um farol sobre a cidade. As luzes industriais refletem-se nos telhados e iluminam, em primeiro plano, o cemitério onde jazem centenas de mineiros. Uma estrutura de aço e betão, reforçada em 2017 com capital chinês e apoio do Governo marroquino, deveria ter trazido prosperidade e trabalho digno, mas o investimento de mais de 300 milhões de euros traduziu-se em emprego para apenas uma pequena fração da população – cerca de 10%, segundo Hamid. Os restantes permanecem na clandestinidade das minas, sobrevivendo como podem, sob o mesmo céu que a central ilumina com esperanças vazias.
Ao lado, nas ruínas da antiga central de mineração, homens sem recursos para comprar sequer instrumentos para trabalhar nas galerias vasculham os restos de carvão, para encontrar fragmentos que ainda possam ser vendidos. As mulheres e as meninas não descem às minas, mas tingem as mãos de negro na superfície, separando e selecionando o melhor carvão entre a poeira. As doenças também lhes chegam: o pó de sílica percorre toda a cidade, entra pelas janelas e infiltra-se pelas frestas das portas. Os numerosos aterros sanitários – remblais – acumulam-se nas margens de Jerada e tornam-se um risco permanente. Numa região árida, próxima da fronteira com a Argélia, o calor e os ventos secos fazem entrar em combustão os montes de resíduos, poluindo o ar que todos partilham.
O setor da mineração representa cerca de 10% do produto interno bruto marroquino, 20% do valor das exportações e emprega mais de 40 mil pessoas, segundo os dados oficiais. O Congresso Internacional de Mineração realizou-se de 24 a 26 de novembro de 2025 em Marrocos, e, um mês depois, a ministra da Transição Energética – Leila Benali – apresentou uma proposta de reforma que prevê maior proteção dos trabalhadores, a integração de Jerada na estratégia nacional e a intenção de eliminar progressivamente o uso do carvão até 2040. Ainda assim, a mineração clandestina continua a ser uma das principais fontes de rendimento na cidade. Hamid afirma que os empregos prometidos nunca chegam. A pobreza persiste e o povo resiste, almejando dias melhores.
Tentando quebrar o ciclo herdado, Youssef procurou escapar da vida que o subsolo lhe impôs: partiu da Argélia num barco com outras 15 pessoas rumo a Espanha, atravessando o Mediterrâneo, mas a clandestinidade voltou a traí-lo e acabou por ser preso. Não encontrou esperança ao fugir de uma cidade onde – como lembra um ditado popular que ecoa pelas ruas humildes de Jerada – num mar de terra preta se cava a própria sepultura para sobreviver.



