Os diários de Vicente Fraga
Ao volante do carro, sozinho, com música e sem rede, Vicente Fraga percorre as aldeias vazias da Galiza rural. Procura os últimos habitantes, escuta as histórias, fotografa os rostos, cola folhas secas nos cadernos, escreve. Chamou ao seu projeto Adeus. Não acredita que o mundo rural regresse.
Quando chegou finalmente o dia de escrever, de caneta em punho, com a caligrafia desenhada que a prática profissional de arquiteto lhe permitiu treinar, como se passou a jornada daquele 25 de julho, passavam já mais de seis meses. Meio ano é mesmo o tempo que normalmente leva de atraso a escrita do diário de Vicente Fraga, fotógrafo, nascido em Pontevedra há 47 anos. E não há mal nenhum em escrever um diário com tantos dias de atraso – afinal, o propósito é guardar o passado para memória futura. Não há prazo de validade para que isso aconteça. “É para os meus filhos saberem o que andei para aqui a fazer”, diz.
Para Vicente, é mais importante fazer com tempo, com cuidado, com respeito e com método. São esses todos os ingredientes que utiliza em cada uma das viagens que faz pelas aldeias rurais de Lugo ou Ourense, da Corunha ou, menos, de Vigo. Prepara cada viagem consultando o Google Maps e o Google Earth. E em todas elas tira muitas fotos e faz muitos vídeos, recolhe vestígios e plantas que possa guardar entre as folhas de um livro, para, depois de secas, as colar nessas mesmas páginas do diário no qual vai contar cada detalhe de cada jornada. “Não sei o que vai acontecer aos diários. Até poderão ir parar ao lixo. Mas fica tudo escrito”, assevera.
Vicente Fraga tem dois filhos menores. E tem o pai com 78 anos, que ainda vive na aldeia onde Vicente nasceu. “Na aldeia, éramos quatro gerações – nós, os pais, os avós, os bisavós. Tínhamos vacas, animais, uma vida cheia. E, de repente, tudo tinha desaparecido. Comecei a investigar.” Os avós já morreram, a mãe também. E, normalmente, são estes factos que o ajudam a autojustificar-se por que é que se sente impelido a deixar a mulher e os filhos pelo menos um fim de semana por mês, a meter uma muda de roupa no carro e a perder-se pelas estradas da Galiza rural, à procura de aldeias abandonadas. E de gente que ainda lá viva.
“Comecei a fotografar os rios aqui por perto, mas, pouco a pouco, fui indo mais longe. Comecei a visitar rios da Corunha, de Lugo… E, quando comecei a chegar aos rios de Lugo, percebi uma coisa: para chegares aos rios, tens de atravessar aldeias. Vais de carro e começas a ver o que há. Aqui, por exemplo, vês luzes, casas. Mas ali, no interior de Lugo, o que via era abandono, casas vazias. Tudo parecia deserto.”
Foi assim que, em 2021, lhe surgiu a ideia de procurar essas aldeias. Pediu ao Instituto Nacional de Estatística de Espanha que lhe enviasse uma tabela com a variação da população por freguesia. Identificou nessa tabela as maiores amplitudes. Procurou essas regiões no mapa, montou um plano.
Nesse dia 25 de julho de 2025 faria a sua 200.ª viagem. Ia ter com Rudolfo, um homem de quase 90 anos, pela terceira vez. A primeira vez encontrou-o por acaso. Na segunda, entrou na cozinha, estiveram a conversar. Na terceira, Rudolfo quis mostrar-lhe a casa – o quarto onde dorme.
O encontro entre Vicente Fraga e Rudolfo aconteceu num fim de manhã tranquilo, numa das poucas casas ainda habitadas de uma aldeia do interior de Lugo. Rudolfo tem 90 anos de idade. Nasceu ali, em 1935, e nunca saiu. Vive sozinho desde 2008, mantém rotinas simples: passa os dias na cozinha, cuida das galinhas, recebe visitas ocasionais de sobrinhos e tem um assistente que o ajuda nas tarefas mais exigentes, como a de passar uma noite sozinho. Com memória clara e fala pausada, vai evocando imagens de uma vida dura, mas partilhada – o trabalho no campo, os serões junto à lareira, as festas entre vizinhos, a terra dividida por acordo de palavra. Olha com tristeza para o presente e com lucidez para o futuro do lugar: “Quando desaparecermos, os que estamos aqui, isto acaba…”
Ao longo da conversa, Vicente vai escutando mais do que fala. Faz perguntas simples, diretas, e deixa que Rudolfo conduza o ritmo do que lembra. Falam da infância, da emigração, das casas vazias, do medo da morte, da ausência de vizinhos e do que se perdeu com o tempo. Há ali uma confiança natural, construída na escuta, e um respeito evidente por um modo de vida que já não volta. Rudolfo foi o último de oito irmãos. No meio da solidão, não se queixa: “Acostumei-me. Antigamente tínhamos seis ou sete vacas e vivíamos disso. Agora está tudo abandonado…” Alguns irmãos emigraram, alguns foram à escola. Ele nunca aprendeu a ler nem a escrever. “Não era obrigatório”, diz a Vicente. Não se arrepende de ter ficado. Fala com firmeza e uma serenidade que resiste. Convida Vicente a ver o quarto onde dorme. Vicente pede-lhe que se sente na cama, como faz todos os dias. E tira-lhe o retrato com a dignidade que Rudolfo merece: a de um príncipe, um presidente, um rei. Rudolfo não é menos do que isso.
Rudolfo é, para Vicente, mais um dos amigos que ganhou para toda a vida. Vicente é incapaz de tirar um retrato sem antes estabelecer conversa, ganhar confiança, oferecer empatia que, na maior parte das vezes, recebe em dobro.
Planeou essa viagem de julho de forma a revisitar Rudolfo, em Lugo, e Lola, em Ourense. Lola havia ficado viúva; o marido, José, matou-se com veneno dos ratos, e Vicente ainda não tinha voltado a passar para ver como ela está. Lola é uma força da natureza, gosta de cantar. Dessa vez, não cantou, porque estava de luto. Mas não perdeu a vontade de viver – e de oferecer uma saca de ameixas que estavam maduras, a cair da árvore.
“Gosto muito de estar com os mais velhos. Às vezes, claro, é duro. Porque muitos vão morrendo. Este ano já morreram vários com quem eu tinha relação. Avisam-me. A verdade é que sim, é difícil. Mas também já estou preparado. A minha mãe morreu há sete anos, passei por isso. O que custa mais é perceber que isto tudo se está a acabar, imaginar o que vem depois… dá pena…”, lamenta Vicente.
O que vem depois é o abandono. Vicente não acredita que algum dia o rural seja recuperado – pelo menos o rural de que se lembra, o rural dos seus 12 aos 15 anos, o rural que ainda encontra nas montanhas dos Ancares, nas paróquias mais interiores de Lugo. “Ando pela Galiza toda, mas é aqui, nestas montanhas, em que a Galiza é mais verde, que o inverno é mais denso, que me sinto mais em casa, que mais gosto de andar.”
À saída da casa de Rudolfo, depois de se despedir com um “até à próxima!” (“Será que vai haver uma próxima vez?”, questiona-se), Vicente corta um pequeno ramo de uma árvore florida. Tira algumas folhas, coloca-as entre as páginas de um livro. Quando secarem, vai colá-las nas páginas do diário em que vai relatar este encontro.
Começou a fazer diários desde o primeiro dia. “A primeira vez que saí para este trabalho, levei uma libreta. Hoje tenho quatro, grossas, cheias de anotações”, afirma. No início escrevia só para se lembrar: “Hoje fui aos Ancares”, “conheci um homem chamado Manuel”, “vive aqui”, “contou-me isto e aquilo”. Tomava nota do que lhe diziam – como era viver na aldeia antigamente, como é viver agora, por que é que as pessoas se foram embora. E o que pensam do futuro. Se acham que isto pode voltar a ser como era antes.
Ao princípio, não gravava – só escrevia. Depois começou a gravar e a tirar retratos das pessoas. Imprimia, colava as fotografias no diário, às vezes juntava folhas, flores. “Tenho uma prensa em casa. Comecei a fazer isso sempre.” Os cadernos foram crescendo. Agora são grandes.
“Todos os dias, entre as nove e as dez da noite, quando os miúdos já dormem, enfio-me no quarto, vejo as fotos no ecrã, lembro-me dos encontros, vou escrevendo. E levo um atraso de seis meses. Mas não tenho tempo para mais. Ao fim de semana vou fotografar, estou com muita gente. Durante a semana tenho o trabalho, não me posso dedicar só a isto.”
O projeto começou a ganhar forma. E um nome, também. Chama-se Adeus, porque Vicente sabe que é uma despedida. Sai ao fim de semana, sozinho, com o carro, com música. Deixa o telefone em silêncio. “Às vezes passo horas sem ver ninguém…” O silêncio, a paisagem, a luz, as casas abandonadas, o adivinhar o que foram e o que viveram, os encontros com os que ali permanecem – tudo isso o preenche. “A fotografia, para mim, não é um hobby, é uma terapia, um escape. No fundo, uma forma de me encontrar comigo mesmo e com a Galiza que ainda resiste.”



