El Rocío: o caminho, mais do que o destino
Não é apenas uma romaria, provavelmente a maior de Espanha. El Rocío é um movimento humano de escala rara, uma maré de corpos e vontades guiadas por uma fé secular que anualmente desagua num pequeno lugar da Andaluzia, onde as ruas são de terra batida e o cavalo continua a ser rei. Aqui, a modernidade cede à tradição, em rituais cumpridos com precisão sagrada.
Uma lenda do século XIII cresceu gradualmente até se tornar numa das maiores manifestações religiosas da Europa: a Virgem de El Rocío – La Blanca Paloma (A Pomba Branca) – é o eixo em torno do qual tudo gravita. Anualmente, mais de um milhão de pessoas convergem entre El Rocío e a vizinha Almonte. Chegam a pé, a cavalo, em carroças ornamentadas que atravessam caminhos ancestrais, que nos levam a tempos imemoriais.
Um fenómeno social de logística improvável permite inúmeras cidades em contínuo movimento, organizadas, com disciplina férrea e compromissos silenciosos, pelas centenas de irmandades que, no fim da migração, acampam nos arredores do povoado. O caminho é feito de tendas, carroças, cavalos, cozinha para centenas, celebração de missas ao relento, um conjunto de rituais mais herdados do que aprendidos, que prolongam o convívio por dias. El Rocío revela-se muito mais do que religião: é o fiel retrato de uma peculiar identidade coletiva, sinónimo de solidariedade e um sentimento único de pertença.
Filipe Carvalho não é crente, nunca foi, mas a curiosidade sobre o fenómeno El Rocío acompanha-o há anos, como uma inquietação discreta. As religiões não o comovem, ao contrário das pessoas e daquilo que são capazes de fazer em nome das suas convicções. O fotógrafo assumiu o firme desejo de o experimentar: medir a escala da crença, sentir a dureza do desafio, perceber como um braço de rio humano aflui, todos os anos, a um mar de convergências de fé.
Intriga-o o ritual persistente num mundo que parece ter perdido a paciência para tudo o que exige tempo. Mais do que a devoção, interessa-lhe o caminho; mais do que o destino, tudo o que acontece antes de lá chegar; e, sobretudo, a possibilidade de não somente observar, mas de ser parte; de sentir; de testemunhar.
Essa inquietação ganha corpo e leva-o a reativar um contacto antigo feito na região. É assim que, por vias travessas, chega a Alfredo, simplesmente o gran hermano da Irmandade de Granada, uma das figuras centrais desta história.
El Rocío não é um lugar aonde se chega, se contempla e se parte. É um corpo coletivo, organizado em irmandades, hierarquias e regras não-escritas. Sem ligações, não há entrada; a de Filipe acontece através de Miguel e Alfredo, também da Irmandade de Granada. Desde logo assumido, o seu objetivo é claro: uma motivação humana e documental.
Alfredo sabe quem Filipe é e o que deseja, e aceita-o. Não questiona a ausência de fé: respeita-a. Recebe-o como a um irmão e apresenta-o, sem reservas, a uma comunidade de mais de 200 devotos que avança, há dias, em procissão organizada. A pertença, ali, constrói-se mais no percurso do que nas convicções.
O fotógrafo português entra em ação ainda antes de El Rocío surgir no horizonte: uma mochila reduzida ao essencial, equipamento contido, expectativas suspensas. A jornada é longa e o excesso pesa. São dias de caminhadas exigentes, calor intenso e um aparente caos que depressa se revela como uma engrenagem precisa. Cada elemento do grupo tem funções claras, horários a cumprir, rituais obrigatórios que estruturam o tempo. El Rocío parece desordem – milhares de pessoas, animais, carroças, poeira – mas o que sustém tudo é uma arquitetura rigorosa.
O simpecado guia o avanço; as missas diárias, celebradas em clareiras improvisadas, marcam o ritmo. As refeições obedecem a uma disciplina quase invisível. A austeridade convive com o conforto – por vezes até com o luxo – conforme os meios de cada irmandade. Algumas carretas transportam o mínimo indispensável, outras, como as de Granada, são generosas, trabalhadas ao pormenor. Ainda assim, todos caminham. O caminho iguala.
Visualmente, a romaria é uma Andaluzia em movimento. Os trajes tradicionais não são encenação nem folclore: são continuidade viva. Renovam-se todos os dias, como se cada etapa fosse a mais importante. Homens a cavalo, mulheres de vestido andaluz, carroças ornamentadas com esmero. Tudo avançando ao som hipnótico do pífaro e do bombo, um compasso repetitivo que se infiltra no corpo e se instala na mente.
À passagem pelas aldeias, a romaria é recebida como família. Igrejas abertas, bênçãos rápidas, olhares atentos. Não há espetáculo para consumo externo – unicamente memória que se repete. Não surpreende ver bois subirem escadarias e entrarem em templos: ali, o extraordinário é mero quotidiano.
A integração de Filipe constrói-se quilómetro após quilómetro. Não pela fé, antes pelo esforço partilhado. Além de fotografar, observa quando pode ajudar – nas tarefas mais pequenas ou nas mais duras. Admira os tratoristas, mestres improváveis a manobrar máquinas enormes por caminhos impossíveis, as cozinheiras que alimentam centenas, os cuidadores dos animais, atentos a cada detalhe. As conversas surgem entre o cansaço crescente e o riso breve.
Os dias sucedem-se em horas poeirentas, sob um sol implacável, em silêncios longos que favorecem a introspeção. Sem redes sociais, sem distrações tecnológicas, o corpo resiste enquanto a mente se eleva. Os cânticos pautam o caminho, entre lágrimas frequentes. A devoção é crua, intensa, repetida; até se tornar inabalável.
Filipe não é arrastado para a fé, mas para um respeito profundo pelos companheiros de jornada. Cresce nele um sentimento de pertença, de empatia, de admiração por aquela entrega coletiva.
Há um rio para atravessar. Que melhor ocasião para um batismo? Seduz-lhe o ritual mais do que o significado. Todos passam, todos se molham. Mais um gesto de igualdade no esforço comum.
O desgaste acumula-se. A pequena tenda onde dorme revela-se insuficiente, pelo que rapidamente aprende que “é mais avisado” montá-la à luz do dia do que depois de um serão prolongado, onde o vinho é mais do que o corpo de Deus. Na última noite, é recompensado com um prémio raro: um beliche na casa da Irmandade.
De estranho recém-chegado, Filipe transforma-se em parte de um corpo coletivo em fluxo. A entrada em El Rocío é uma explosão emocional difícil de conter: lágrimas, abraços, gritos de exultação. A jornada foi dura, transformadora, deixou marcas, uma experiência de excessos – de pessoas, de esforço, de intensidade mental – onde o grupo se sobrepõe ao indivíduo.
Alfredo surpreende-se com a despedida prematura de Filipe: o grande dia começaria somente na manhã seguinte. Porém, compreende: para o português, o caminho foi sempre mais importante do que o destino. Assim, antes do último abraço, Alfredo procura algo que coloca ao peito do português, num gesto simples, cheio de significado. “A partir de agora, és um de nós”.
Na madrugada de domingo para segunda-feira de Pentecostes, a ansiedade e tensão indomáveis explodem num momento único: o “salto da reja”. A multidão rompe a grade do altar e os almonteños içam a imagem da Virgem, que percorre a aldeia aos ombros, embalada por entusiastas vivas, abundantes lágrimas e promessas cumpridas. Fé no seu estado mais bruto, puro, um alucinante fervor coletivo que atravessa a noite e transforma a pequena igreja no coração da Andaluzia.
Num tempo em que falta espaço para a contemplação do ritual, Filipe não tenta explicar El Rocío; prefere partilhar o seu caminho, que termina em pertença enraizada. “Senti que em apenas quatro dias de romaria fiz amigos para toda a vida. Fizeram-me sentir família”, desabafa. É a prova de que, por vezes, basta caminhar com os outros para pertencer; sem precisar de acreditar.



