O azul dos samurais

O azul é herança de guerra e de ofício, de samurais que vestiam índigo como promessa de vitória e de mestres tintureiros que ainda hoje mergulham tecidos em tinas vivas de fermentação. Em Izumo, a família Nagata preserva um azul profundo que atravessa séculos de história.

Diz a tradição que os samurais, os membros da classe guerreira que dominou o Japão até meados do século XIX, nutriam uma especial preferência pelo azul no vestuário, mais concretamente pelo tom de índigo, ou azul-anil, designado em japonês como aizome ou kachi-iro. Consoante a grafia, esta última expressão pode significar “cor da vitória”, o que ajudava a justificar, entre os guerreiros, uma certa superstição em torno da cor. Mas a explicação pode não ser apenas simbólica. A planta de onde se extrai esta tinta natural possui propriedades antibacterianas, antifúngicas e anti-inflamatórias, que, em contexto de combate, ajudariam a proteger os feridos de possíveis infeções.

Este tipo de tingimento com azul-índigo, como tantas outras tradições, foi trazido da Índia para o Japão, via China. O tom vem das folhas da planta de índigo japonês (Persicaria tintoria), que encontra na província de Tokushima, na ilha de Shikoku (ou Xicoco), um habitat natural perfeito nas margens do rio Yoshino. Não é de estranhar, pois, que esta zona tenha sido a principal dinamizadora deste tipo de tingimento no Japão, durante mais de 800 anos…

Foi precisamente de Tokushima que a família Nagata veio para a cidade de Izumo, na província de Shimane, no final do século XIX. Nessa altura havia cerca de 60 ou 70 casas de tintureiros tradicionais nesta região. Hoje em dia restam apenas Shigenobu e Masao Nagata, pai e filho, respetivamente a quarta e quinta geração de tintureiros na família. Quando entramos na sua loja, Nagatasenkoujou, é impossível não reparar nas seis tinas escavadas no chão, à direita. Há várias oficinas de tintureiros aizome espalhadas pelo Japão, mas esta é uma das duas ou três que restam dedicadas a uma técnica muito específica de tingimento aizome, denominada tsutsugaki aizome.

À medida que os anos foram passando, os processos industriais de produção em massa foram gradualmente substituindo os processos tradicionais. O tingimento passou a ser feito por meio de produtos químicos, em vez do processo natural. No entanto, a família Nagata faz questão de manter a forma tradicional. “Não é a mesma coisa”, diz Masao Nagata. “O processo de tingimento químico faz com que o tecido liberte a cor mais facilmente, o azul torna-se menos vivo ao longo dos anos, e a cor é transferida mais facilmente para a pele. No tingimento tradicional, isso não acontece”. Quem já ficou com um certo tom azulado na pele depois de usar umas calças de ganga novas sabe exatamente a que se refere.

Grande parte dos produtos produzidos pela família Nagata na sua oficina são peças de vestuário como quimonos ou hakama (calças tradicionais japonesas), mas também peças tradicionais como furoshiki ou tenugui, panos usados desde há vários séculos para embrulhar ou transportar pequenos objetos. Estes normalmente têm motivos ou desenhos tradicionais sobre fundo azul e é aqui que entra a técnica tsutsugaki, que é a especialidade da família Nagata.

O processo começa com o mestre Shigenobu a desenhar num pano branco os motivos tradicionais que vão ser impressos: uma garça, um coelho, carpas, nuvens, ondas. Depois, usando uma pasta adesiva feita de arroz glutinoso, vai delinear os contornos dos desenhos com uma pequena bisnaga de pele (tsutsugaki). A seguir aplica farelo de arroz, que ajuda a pasta a assentar no tecido, e limpa o excesso com uma pequena vassoura. O tingimento não chega aos locais onde a pasta assenta, o que faz com que o resultado final seja um desenho tradicional branco sobre um fundo azul-índigo.

De seguida, o filho Masao Nagata toma conta do processo. Aplica água morna ao pano para ajudar ainda mais a delinear os motivos e mergulha os panos nas tinas, de onde se consegue vislumbrar uma matéria que parece uma espuma sólida azul-escura. Inicialmente, a cor do tecido, depois de mergulhado durante uns três minutos, é um amarelo-esverdeado, depois passa a verde e, finalmente, a azul, quando seca. O processo é repetido tantas vezes quanto mais escura for a tonalidade de índigo que se pretende como resultado final. Alguns tecidos são mergulhados duas ou três vezes, para um tom mais claro, outros chegam a ser mergulhados dez a 12 vezes, para obter um azul profundo.

O conteúdo das tinas é um líquido fermentado onde vivem bactérias, que são as principais responsáveis pela cor. Querem sair da água onde se encontram o mais rápido possível, e por isso agarram-se a qualquer coisa que lá seja mergulhada. No entanto, fora do meio líquido não conseguem sobreviver por mais de alguns momentos. Os seus vestígios ficam no tecido, e são o que acaba por causar o tingimento. Este processo de fermentação, para além da planta de índigo, usa flores secas, sake e outros ingredientes. A composição exata não pode ser divulgada. “É um segredo da família”, explica Masao.

Uma vez terminado o processo de tingimento, os tecidos são lavados no pequeno ribeiro que existe à frente da oficina, de forma a limpar a pasta adesiva e a revelar os motivos brancos sobre o fundo azul. Serão depois postos a secar ao sol à entrada da loja, se o tempo estiver bom, e ficam, assim, prontos.

É difícil ficar indiferente a estas peças, uma vez terminadas: os vários tons de azul, em particular os mais escuros, são cativantes, e os desenhos tradicionais a branco contribuem para os realçar ainda mais. Há algo de mágico quando se seguem processos tradicionais, em vez da produção em massa de processos industrializados, e felizmente ainda restam famílias que se dedicam a estas tradições, tal como a família Nagata, para o comprovar.

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