Lágrimas de tartaruga

Nas praias de areia branca no Atlântico Norte, as tartarugas regressam todos os anos ao lugar onde nasceram para cumprir um ciclo antigo como o mar. Durante décadas, foram sustento e caça; hoje são símbolo de proteção e esperança. Em Cabo Verde trava-se uma corrida silenciosa pela sobrevivência de uma espécie que aprendeu a resistir. Os cães e os drones apoiam a missão.

Reza a lenda que, do alpendre macio com vista para o mar, tartarugas-marinhas derramam lágrimas trançadas em areia branca no momento da desova, pois, cientes da dimensão e profundidade inalcançável do oceano, o destino das suas tartaruguinhas à deriva torna-se incerto, inseguro e perigoso, onde as probabilidades de se voltarem a ver são de apenas de um para mil.

Apesar de tal mito ser em parte verdade, hoje, com o estudo aprofundado das sete espécies de tartarugas-marinhas do planeta, sabemos que este “chorar” é nada mais do que um mecanismo que os répteis marinhos encontram de excretar o excesso de sal do seu corpo, através das glândulas lacrimais. Contudo, que esta revelação não nos distraia da real dureza das suas vidas, talvez uma das espécies mais resistentes que alguma vez existiram no nosso planeta e “o sinónimo da natureza para perseverança”, como desabafa Sara Vieira, coordenadora de voluntários na Fundação Tartaruga, uma organização não-governamental com ação em Cabo Verde.
Com uma carapaça que funciona como escudo contra predadores, as tartarugas vagueiam pelo planeta há cerca de 260 milhões de anos. Sobreviveram à extinção dos dinossauros, às eras glaciares e, mais recentemente, à pressão da caça humana. Hoje, todas as espécies se encontram “ameaçadas”, “criticamente ameaçadas” ou “vulneráveis à extinção”. Ainda assim, no Atlântico Norte, a população nidificante de tartaruga-comum (Caretta caretta) em Cabo Verde oferece um sinal de esperança.

Navegando entre águas temperadas a tropicais acima dos 10ºC, as tartarugas são um grupo cosmopolita e migratório, que depois dos “anos perdidos” – termo criado pelos cientistas sobre a misteriosa etapa juvenil da sua vida – se reproduz no mar e se arrisca a voltar à sua praia natal com um destino e propósito contrário: o local ideal para derramar uma lágrima. Mas, para isso, terá de se arrastar por praias cada vez mais irreconhecíveis pelo avanço do mar, invadidas por redes de pesca e calcadas pelo turismo crescente. Se toda a sua postura eclodir, estas cerca de 80 cascas de ovos daqui a 45 e 60 dias ficarão para trás, apenas para ser devorados, oportunisticamente, por aves, caranguejos, cães e gatos.

A cada temporada de nidificação, a Caretta aventura-se para desovar, sempre perto da mesma área de praia, em média seis vezes, desde junho a final de outubro. Isto sem incluir todos os “falsos arrastos” ou as tentativas infortunadas de encontrar a areia e o substrato certo para “chorar”. Mas é, no entanto, nesta fase crucial do seu ciclo de vida, o instinto animal pela urgência da descendência, que a população de tartarugas em Cabo Verde fica exposta e vulnerável à gula do homem.

Em virtude da não-presença de povos indígenas e de desabitada até ao século XV, a Républica de Cabo Verde, um arquipélago vulcânico composto por dez ilhas, no Atlântico Norte, ao largo de Senegal, contém atualmente a maior população mundial nidificante de tartaruga-comum (Caretta caretta). Esta condição terá sido alcançada muito devido ao seu modesto tamanho populacional e ainda ao seu moderado desenvolvimento, desde 5 de julho de 1975 como país independente de Portugal. Também o estatuto de proteção conferido em 1987, que proibiu a captura desses animais durante a época de desova, colmatou, indiscutivelmente, a pressão insustentável que se começava a sentir nas populações de tartarugas-marinhas, à medida que praias remotas ganhavam o acesso da população.

A pobreza e a fome de outrora, sem a opção de recursos alimentares alternativos, faziam da época de nidificação das tartarugas um acontecimento ansiosamente aguardado por grande parte da comunidade local. Era uma dádiva dos mares que, sazonalmente, oferecia a oportunidade de dali se retirar mais do que o suficiente e estritamente necessário, tal era a sua abundância. Esse exagero justificar-se-ia não só pela falta de sensibilização ecológica, mas também pela necessidade de armazenar e depois consumir durante a temporada de inverno, perante o contexto da cultura de sobrevivência sobre a incerteza das colheitas.

Cabo Verde é hoje um dos países mais democráticos de África. Quem vagueia por qualquer das ilhas do arquipélago encontra uma cultura de descontração que abraçou a conservação ambiental através da defesa e proteção da sua espécie mais simbólica, atraindo, consequentemente, milhares de visitantes para a sua observação e criando uma nova onda geracional em que “muitas pessoas ganham com o regresso das tartarugas e com o seu capital natural“. A afirmação é de Adilson, atual coordenador da equipa de Conservação de Cães e Drones da Fundação Tartaruga. Contam-se pelos dedos das mãos as tartarugas ainda capturadas ilegalmente, ora para consumo próprio, ora para venda ilegal para saciar os menos escrupulosos com uma iguaria extravagante.

Tudo aponta para que este povoamento europeu nos trópicos se tenha estabelecido no sotavento cabo-verdiano, na ilha de Santiago, em 1462. Desde a sua colonização que os exploradores portugueses souberam tirar proveito das poucas riquezas das ilhas: sal, urzela (um líquen tintureiro) e a tartaruga-cabeçuda, assim conhecida pelos habitantes. Esta espécie é considerada a terceira maior do mundo, com grandes e fortes músculos ao redor do pescoço que destroem as partes duras de crustáceos, equinodermes, cnidários, moluscos e águas-vivas, e o seu contributo para o equilíbrio da cadeia trófica é fulcral.

“Há um padrão no passado, uma vez que civilização após civilização desgasta as relações com a natureza, superpovoando, superexpandindo-se e sobreexplorando o seu ambiente”, escreve Ronald Wright em Breve História do Progresso. A própria história da captura de tartarugas é, toda ela, um triste registo da caça de espécie após espécie, em região após região, direta ou indiretamente. Hoje, há cada vez mais um sentimento generalizado de que o progresso, quando vítima dele mesmo, armadilha-se, desgasta-se e acaba por minar a gestão dos recursos naturais, um risco que pode ameaçar que, geração após geração, a fasquia seja colocada mais em baixo, pois, tornando-se a vida selvagem tão escassa, também a esperança de a salvar se transforma em mera utopia.

Não restam assim tantas tartarugas-marinhas, e as que restam enfrentam hoje muitos perigos, incluindo “poluição, destruição de habitat, pesca acessória e atropelamentos“, esclarece Sara Vieira. “A nadar contra a corrente”, estima-se que, durante uma boa temporada, se uma fêmea depositar cerca de 1000 ovos, apenas uma tartaruguinha terá a sorte de atingir a idade adulta.

Louvemos, assim, o esforço e dedicação das várias organizações não-governamentais de Cabo Verde que, desde os anos 2000, patrulham todas as noites as praias de nidificação, para proteger as tartarugas-marinhas da caça furtiva ilegal. Só em 2018 é que a tão aguardada aprovação do Decreto Legislativo n.º 1 criminalizou e penalizou o abate de tartarugas-marinhas, posse de carne e seus derivados, garantindo o estatuto de proteção completo a qualquer espécie do grupo, tanto em terra como no mar.

Tão importante foi esta resolução, que levou Roni, um ex-caçador de tartarugas e agora coordenador de acampamento da Fundação Tartaruga, a optar, como o próprio confessa, pela “proteção e um salário assegurado, em vez de ser apanhado, multado ou ir para a prisão”. Tirando o devido proveito da legislação, a mesma ONG que mudou a perceção e abordagem de Roni quanto ao património natural da sua terra natal cria ainda no mesmo ano a primeira equipa móvel de operações de combate à caça furtiva, na ilha da Boa Vista, que detém atualmente 60% a 70% dos ninhos de tartaruga-comum do país. Esta terá sido a última ONG a chegar à ilha da Boa Vista, em 2007, mas, com seis acampamentos, consegue patrulhar mais de 30 quilómetros de praia por noite.

A ilha das Dunas, como é tão famosamente apelidada, detém 52% da extensão de praias de areia branca de todo o país. Se o ambiente remoto que abraça a terceira maior ilha do arquipélago é, logo à partida, convidativo para as tartarugas, por outro lado, também representa sérios desafios de patrulha noturna. Para colmatar as dificuldades logísticas e geográficas que implicam a proteção de uma única espécie, a equipa de Cães e Drones está ativa em todas as praias, especialmente naquelas com elevada pressão de caça furtiva, trabalhando em estreita relação com o Ministério, polícia local e servindo todas as ONG. Dispõe de equipamentos de visão noturna, como drones e binóculos com sensores térmicos de infravermelhos, que garantem a fiscalização regular, aberta e encoberta, otimizando as patrulhas de praia já existentes. Metade da equipa é responsável pelo controlo da tecnologia de vigilância, enquanto a outra metade tem a árdua tarefa de cuidar, guiar e comandar Kelo, Karetta e Olívia – cães treinados para detetar vestígios de tartaruga em operações de contrabando, inclusive em aeroportos e portos. “Como é possível que um animal proteja outro animal?…”, provoca Adilson.

Os resultados são expressivos: mais de 200 mil ninhos registados em 2021 – números encorajadores, sobretudo num contexto global em que, segundo o Relatório Planeta Vivo da WWF, as populações de vertebrados diminuíram, em média, 73% entre 1970 e 2020.

Importa salientar que, mesmo com uma nova lei em vigor, subsiste uma tradição de caça à tartaruga. É essencial aplicar a lei, executá-la e assegurar o seu cumprimento, de forma a não corroer a autoridade e o respeito público pela legislação. É a esse esforço que tal equipa se compromete, de dar suporte à Polícia local, de forma a desencorajar, desincentivar e eliminar qualquer tipo de atividade residual na ilha da Boa Vista.

Reconhecidos pela comunidade local pelo seu trabalho pioneiro, aplicando técnicas de proteção inovadoras com treinos constantes e supervisão alemã, envolvem-se em todo o tipo de operações em que as suas competências são úteis e, por vezes, imprescindíveis, tais como o resgate de cetáceos encalhados. Também se dispõem, fora da época de nidificação, a projetos de sensibilização nas escolas e eventos que muito ajudam a criar na sociedade uma diferente perspetiva relativamente à forma como se valoriza a vida selvagem. “Um dos trabalhos mais difíceis da conservação é mudar a perceção e mentalidade das pessoas”, conclui Sara Vieira.

Num planeta em transformação, onde a abundância convive com desigualdades profundas, é imprescindível abordar a natureza e os seus habitantes não como algo extrínseco, que pode ser explorado para satisfazer o nosso apetite. As tartarugas regressam todos os anos à mesma praia, arriscando tudo para perpetuar a espécie. Aqui está uma belíssima oportunidade de reescrever a História, tal e qual como a outra que tantas lágrimas derramou, nos colos das mães cativas que sonhavam apenas ver os seus filhotes livres.

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