Em terra de Bravos, a Terceira é rainha

Mais de 800 superatletas enfrentaram o Azores Bravos Trail na brava ilha Terceira e fundiram-se com paisagens vulcânicas, tradições e a alma terceirense. Mais do que uma prova, uma jornada de superação.

“Cem quilómetros não são 100 metros! Há dias em que não faço isso nesta carrinha!…” José Drumond passou meia dúzia de anos na lavoura e o resto da vida no táxi. Por muitas voltas que dê à sua ilha, a Terceira continuará a ter 90 quilómetros de perímetro. “É preciso ter coragem!…”

É preciso ter coragem para, às 0h00, alguém seguir o rastilho do foguete e passar mais de meio dia a correr 100 quilómetros, a serpentear pela mais brava e mais serena ilha dos Açores, pisando musgos e ruas calcetadas, tufos de erva fofa, valas lamacentas e rochas severas, a levar com o vento na cara e com os humores do tempo na crista das colinas, com o cheiro a figos frescos e a bosta de vaca, com o verde da ilha a entrar pelos olhos adentro e o vermelho da terra e as vozes que se ouvem à distância que nesta ilha não há segredos.

Alma de fogo, jeito de jardim, a Terceira fica à mercê de superatletas, homens e mulheres, altos, baixos, mais ou menos novos, mais ou menos veteranos nesta história de sair de casa para correr sem fim à vista, pernas de ferro, coração de algodão que a vida é uma caixa de chocolates. A ilha é para quem a ousa. Força nos músculos, coragem no peito. Subidas íngremes, vistas que curam, sem público, sem holofotes. Partiram mais de 800 humanos neste Azores Bravos Trail (AzBT) – cortaram a meta um pouco mais humanos.

“Superação pessoal”, responde Márcia Pavão, com a noite inteira para correr e para pensar no trabalho, na família e na vida. “Penso: ‘O que é que estou aqui a fazer?!’”, sorri. “É desporto”, resume Bruno Matos, diretor de prova, “mas é mais do que desporto”. São matas e florestas, túneis gigantescos de criptomérias, falésias e vulcões adormecidos Rocha do Chambre, Algar do Carvão, Mistérios Negros, Furnas do Enxofre, Angra do Heroísmo. “Cada quilómetro é uma homenagem à beleza da ilha Terceira”, diz Bruno. Entre as quatro distâncias (100, 65, 35 e 15 quilómetros), seguem 250 participantes locais. “Muitos passam por sítios pela primeira vez…”

O Bravos também é uma homenagem à bravura dos terceirenses, à lenda da Brianda, que na Batalha da Salga soltou os touros contra os mil espanhóis que, a 25 de julho de 1581, desembarcaram na baía da Salga, ao povo que faz dos becos festas e que entrelaça a linguagem com a geografia. “Aqui ninguém se perde. Está-se sempre a ver o mar.” Entre José Machado e os corredores existe um labirinto de curraletas, que encurralam pés de vinha rasteira queimados pela maresia. “Há muito pouca vinha trabalhada porque não dá rendimento absolutamente nenhum. Só por carolice…” O Verdelho, a única casta tradicional dos Açores, “está a desaparecer”. A culpa é do mar – “em dias de ressalga, limpo o vidro da janela com o bife e fica temperado” – e de quem se esquece da terra de lava basáltica que se assemelha a biscoitos partidos e a pedaços de pão tisnado e que fere a pele daqueles que por ali passam em passo apressado.

O termo “biscoitos” foi emprestado para descrever uma característica da natureza que, por sua vez, se tornou o nome de um lugar à beira-mar plantado. “O Verdelho é uma coisa fantástica”, junta Telmo Costa, em plena vindima de vinho-de-cheiro, vulgo Isabel. “As pessoas querem as coisas transformadas, e nós perdemos o essencial. Estas vinhas eram do meu padrinho, que viveu toda a vida como vinicultor; hoje é impensável…”

Nisto, há uma prova de trail que se perde – e se ganha – pela ilha. Há vacas de todas as cores com prioridade e turistas à procura de pontos no mapa de uma ilha com dores de crescimento e Hugo a ordenhar as cabras e becos em festa com touros presos à corda por serem bravos.

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