Sorrisos em Babel

Numa manhã de chuva, entre a gente remota de uma cidade da província montanhosa de Hunan, no Sul da China, onde pontuam, com a gravidade das mãos de um deus, as colunas escarpadas de quartzito e arenito, um jovem rapaz dirige-se à estação central para apanhar o comboio que o levará até Shangrao e, daí, o respetivo transbordo noturno para Huangshan, mais a leste, lugar das ancestrais Montanhas Amarelas forjadas pelo fogo das bocas dos dragões que, segundo reza a lenda, ainda lá repousam nas lagoas de jade.

Entre as línguas do saber deste jovem rapaz, estão o mandarim, o cantonês (também conhecido por yue), o gan, o hakka, o min, o wu, o xiang; idiomas pretéritos e longínquos que, todavia, ainda hoje cantam.

Na China, são 1400 milhões de vozes a ecoarem, mais de 300 línguas
vivas. Em particular, na região de Hunan, onde o jovem desta história se
encontra, 36 milhões de vozes falam o xiang. Dividido entre o novo e o antigo xiang, como outros idiomas de origem chinesa, o xiang é tonal e possui cinco tons diferentes que denotam significados.

E pensar que no princípio era o verbo, e que o verbo se escreveu em
coiné, forma popular do grego antigo e língua franca do Império Romano do Oriente…

O jovem lembra o sânscrito, o romani, o curdo, o samoiedo, o crioulo,
o turco, o mongol, o calmuco e o frísio. Também o caxemiriano, o cree, o gaélico, o galês e o hitita. Mentira: não pode recordar nenhum destes idiomas; nem sequer saberia escrevê-los. E, no entanto, sabe sorrir. E os sorrisos vêm de volta, como anfitriões em Babel.

Num enorme letreiro digital, indicações, sinais, símbolos, semáforos,
animações, gráficos, alguma espécie de cifra. Estas não são as suas letras, não são as suas palavras. O caos, desenhado em linhas caóticas. O caos, por norma, designa desordem, mas nem sempre.

Afiançava Jorge Luis Borges que o número de símbolos ortográficos é
vinte e cinco e que “foi desta observação que se permitiu formular uma teoria geral da biblioteca”.

Borges também viajou na sua juventude, “peregrinou em busca de um
livro”, e, contudo, talvez não se tenha visto nunca diante de um letreiro digital como este.

As diferentes variedades faladas do idioma dito chinês – forma errada
com que geralmente referimos o mandarim – são mutuamente ininteligíveis para os respetivos falantes, nomeadamente no que respeita à pronúncia e ao vocabulário, mas a intercomunicação por escrito é possibilitada pelo facto de partilharem o mesmo sistema de escrita ideográfica. Porém, o seu alfabeto não é silábico.

O caos, de novo o caos. Hexágonos, estantes, labirintos, bibliotecas. De
novo Borges.

Cada símbolo é uma ideia, como cada rosto é um só; um anseio, um
desejo. Uma civilização de mais de 3500 rostos, 1400 milhões de pessoas, escritos e inscritos na face do mundo há praticamente 4000 anos.

Segundo a lenda, Cangjie, um burocrata da corte de Huang Di, o
“Imperador Amarelo”, terá inventado a escrita chinesa inspirado pelas formas naturais do mundo – o sol, a lua, as nuvens, os lagos, também a ave e a fera –, criando, então, os pictogramas iniciais.

Cangjie criou o zì, que seria a primeira sequência de caracteres chineses, e, no mesmo dia da criação, choveram grãos do céu, e, durante a noite, fantasmas e demónios choraram por já não conseguirem enganar os homens.

A partir de então seguiram-se os sinogramas e os logogramas; os traços e os radicais; inventou-se o estilo dos escribas; o grande e o pequeno selo. Tudo o que nos é dado exprimir: um carácter, um rosto, um homem, uma só história. O princípio de uma grande biblioteca; viva e universal.

E, no entanto, a chuva mais persistente, nuvens sombrias.

Multidões acorrem à estação central, despejando malas, sacos, animais
vivos, olhos mortos, gente bramindo. Vozes bulhentas, intermináveis, infinitas, como são as possibilidades das combinações da biblioteca.

Toda essa gente, todas essas vozes ecoam no átrio da estação, abrigando-se da chuva, procurando partir para onde os comboios costumam partir.

O letreiro alterna nas suas cores: vermelho, amarelo, verde. Só os números são uma homenagem à universalidade, aos matemáticos antigos, persas e árabes. E, também, um zero, vários zeros. Zero, em princípio, quer dizer nada.

Este jovem está cansado de percorrer o mundo, de saber a cronologia.

Os dias há muito que se sucedem, também os rostos. O calendário marca a passagem do tempo, as calendas. Doem-lhe os pés, doem-lhe as pernas, dói-lhe o corpo todo, também a cabeça.

Há 15 dias que saiu de Lassa, no Tibete, no topo do mundo. A 3600 metros de altitude, são precisos três a quatro dias para nos habituarmos à falta de oxigénio. Em três ou quatro dias não se pode ler a obra completa de Tolstoi ou de Proust, muito menos quando em voltas. Em Lassa, no Tibete, circula-se sempre no sentido dos ponteiros do relógio, e o relógio percorre sempre o mesmo número duas vezes por dia. Relógio e religião são uma e a mesma coisa: uma fé.

No Tibete, Ana Karenina e Em Busca do Tempo Perdido estariam
escritos em tibetano, ou em kham ou em amdo; mas o Tibete é um planalto vergado à enorme montanha chinesa, à sua língua, ao seu tempo.

Mas o tempo dos outros não é o nosso tempo. Quanto tempo para subir a uma montanha? Como trepar uma escada sem degraus até ao cimo de um hexágono? De novo, Borges. De novo, os livros e as ficções; os labirintos intermináveis. Buenos Aires fica do outro lado do mundo, e Borges é um velho cego que há muito que partiu. Não o pode ajudar.

O jovem não tem como acomodar-se num banco, guardar a sua
bagagem, pedir uma garrafa de água. Ali, não sabe ler, não sabe escrever, como o velho cego argentino guiado por Manguel. Sem os tradutores nunca teria lido os Analectos, de Confúcio. Que línguas saberia ele? Pouco importa. Confúcio, naquela estação de comboios, não passa de uma lenda, de uma narrativa perdida na vasta história esquecida do mundo.

Gao Xingjian é um dos escritores chineses mais conhecidos em todo o
mundo. Nasceu na cidade chinesa de Ganzhou a 4 de janeiro de 1940; em 2000 foi distinguido com o Prémio Nobel da Literatura; porém, desde 1997 é cidadão francês. Não sabemos se terá regressado à China; em que língua fala; em que língua escreve. “Tu também percorreste a China de norte a sul e foste a muitas montanhas de renome, no entanto, nunca ouviste falar desse sítio”, escreveu Gao Xingjian, referindo-se à “[sic] Montanha da Alma”.

A chuva. A chuva, entretanto, tornou-se mais persistente. Troveja.

Os símbolos no letreiro digital avançam, pendurados em ponteiros
cronográficos a imitar. Há algo naquele letreiro que se parece com o que tem escrito no seu bilhete para embarcar para leste, até Shangrao e, daí, para Huangshan, até às Montanhas Amarelas, até aos dragões que, segundo reza a lenda, ainda lá repousam nas lagoas de jade. Porém, talvez apenas um decalque de um poema, a imitação de um engano. Perante o cansaço, empobrecem os olhos, cambaleia o raciocínio. Nesse momento, o jovem já não pode ler nem escrever. Não pode e não sabe. Um lápis de carvão não serve. Nas terras longe, ali, os homens servem-se de pincéis com cerdas naturais, papel-de-arroz e tintas de fuligem e óleo vegetal. Com isso se faz a shufa, a caligrafia milenar chinesa; a compreensão dos homens passada a texto, para ser lida pelos séculos e séculos, naquela terra, nas suas línguas e nos seus idiomas que não são as línguas nem os idiomas deste rapaz.

O jovem decide, então, pedir ajuda. Não precisa de ajuda com a bagagem, com a sede, com as dores no corpo. Mas precisa de um comboio para viajar. Todas as grandes viagens começam num comboio, como uma pequena ajuda até ao outro lado do infinito.

Abeira-se de um homem grande e gordo, como nenhum chinês é grande e gordo. “Sentado no seu trono, um gigante alegre, uma visão gloriosa, brandindo uma tocha gloriosa, com um formato semelhante ao da trompa da abundância, e segurando-a no ar, bem lá ao alto, para verter a sua luz”. Isto foi Dickens quem escreveu a propósito de um dos seus Espíritos; o jovem só imitou. Que interessa? Quantos leitores de Dickens haverá nesse mundo de 1400 milhões de pessoas? Há quase um mês que viaja e, com efeito, até agora não encontrou nenhum.

O gigante alegre é o que se chama o contínuo da estação – responsável
por informar, encaminhar e anunciar visitantes; receber e entregar
correspondência; também executa funções de porteiro ou guarda das
instalações. Mas o contínuo da estação nunca aprendeu outra língua senão a que ele próprio fala; e isso, para este jovem, não passa de um silêncio.

E, contudo, o homem grita. Sobe a uma espécie de tarimba; procura
equilibrar-se; grita. Grita cada vez mais alto, na sua voz cava de palavras conhecidas nenhumas, ignorando o redor.

O jovem insiste em pedir-lhe ajuda. O homem insiste em não reparar
nele. Não pode reparar, não sabe que língua fala, em que língua escreve, não sabe nem compreende o que pode querer ele. Como poderia? De maneira que continua a gritar, uma cacofonia ensurdecedora de uma linguagem incompreensível. Nada de misterioso ou enigmático, apenas incompreensível, estridente, terrífica; possivelmente inacabada, como todas as construções complexas do mundo dos homens são inacabadas.

O jovem tem os olhos cegos de Borges, pois não pode ler, não pode
escrever – já se disse. A sua tristeza é enorme, como toda a biblioteca é enorme, tornando a condição humana infinitésima.

Mas se o Homem é infinitésimo, infinita pode ser a sua bondade.

Ao final de alguns minutos, o gigante desce do estrado de madeira; ajusta a camisa e as calças; cala-se; e aponta para uma criança que vem na sua direção. Indica ao jovem rapaz que lhe fale. A criança é uma menina que não terá mais do que 11 anos; cabelos negros; mochilinha às costas.

Um sorriso para outro sorriso. Um sorriso para outro sorriso antes das
palavras, antes de se entenderem, como em Babel.

Na China, existem mais de 300 línguas vivas, já se disse; e, no entanto,
aquela menina conhece o saber morto de Dickens e de Shakespeare.

O jovem cansado pode, finalmente, compreender palavras como storm, landslide ou cancelled. A menina diz-lhe que, devido à derrocada na linha, só haverá comboios daí a três ou quatro dias, e isto se a tempestade amainar; mas, se desejar, pode ajudá-lo a apanhar um avião para Xangai, para Buenos Aires ou para o topo do mundo; mas não para o lugar das Montanhas Amarelas.

Em princípio, essas palavras seriam como uma desilusão. Porém, não há no rosto do jovem a mínima tristeza, a mínima ansiedade. A menina liberta-o do cansaço, da sede, da bagagem. Liberta-o da viagem; por meio das palavras, por meio do que aprendeu nos livros. Despede-se: “Adeus”. E sorri.

No conto de Jorge Luis Borges A Biblioteca de Babel, um eterno viajante atravessa em qualquer direção, verificando, ao cabo dos séculos, que os mesmos livros se repetem na mesma desordem e, que repetida, seria uma ordem, a Ordem; e não o caos.

“E esta elegante esperança alegra a minha solidão”, disse Borges; e repetiu o jovem rapaz a caminho de casa, por entre as estantes da biblioteca, sem, contudo, nunca ter chegado ao lugar das Montanhas Amarelas onde, segundo reza a lenda, os dragões ainda repousam nas lagoas de jade.

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