Escalar o inferno para saborear o céu
São apenas 16 quilómetros, mas esta estreita e escarpada estrada sobre precipícios de centenas de metros — onde as rodas dos Willys dançam no vazio e o ferro retorcido indicia acidentes mortais — é um pacto com a sorte. Por isso há quem lhe chame a estrada mais perigosa do mundo. O prémio? Fairy Meadows: um éden alpino nos Himalaias rumo a Nanga Parbat, que toca os 8126 metros de altitude.
Em jeito defensivo, acautelando as minhas assumidas vertigens, sento-me no lado esquerdo traseiro do jipe. Olho de soslaio para a imponente montanha e parece-me que o primeiro desafio íngreme está precisamente à minha direita, o primeiro e os seguintes. Confio na sorte, que me vai trair, uma e outra vez. Ao longo de 16 maravilhosos – e mortais, não se sabendo ao certo o número de vítimas – quilómetros.
Para trás, deixo a ponte de Raikot. Atravessando-a, a mítica Autoestrada de Karakoram continua a serpentear até à fronteira com a China, mas sigo a direção oposta. E a longa caminhada montanha acima, sob um sol radioso, algo castigador, não é opção.
Quando, mais frequentemente do que o esperado, as rodas do meu lado derrapam e desafiam o abismo, soltando sucessivamente pequenas pedras da escarpa para ravinas infinitas, questiono-me sobre o que faço ali. Sei que os condutores são experimentados e que os veículos estão bem adaptados ao ambiente hostil, mas se a morte teima em acompanhar-nos, enleante, nem sempre é fácil desligar.
O bom senso dita que deveria estar borrado de medo – pelo menos, com imensas cautelas – e que a esta hora deveria estar a escrever um épico texto sobre esse sentimento que tanto mexe connosco, mas não foi o caso. Chegar ao desejado éden de Fairy Meadows (“Prados das Fadas”, cognome dado por alpinistas alemães nos anos 1930) não é fácil, exige resistência física e mental, mas não é exclusivo a super-homens ou supermulheres: é para os que têm real vontade.
Além de majestosas, muitas das montanhas paquistanesas têm o condão de ser verdadeiramente íngremes, como que negando ao ser humano o supremo prazer de andar no seu dorso. Por vezes, dá para avistar uns quantos zês tatuados na terra árida – os espessos verdes e os brilhantes picos nevados estão plantados na paisagem mais acima –, reforçando uma pura sensação de incredulidade: como é possível alguma viatura andar ali?
Na verdade, vários dos troços duramente esculpidos nas encostas estão simplesmente proibidos a estrangeiros. Por norma, não levam a lugar turístico e as derrocadas sucedem-se a um ritmo que desaconselha aventuras insensatas.
Neste momento, circulo num desses muitos zês que me espantavam lá em baixo. Ao fundo, onde agora as modestas casas me parecem um mero percevejo de prancheta e os carros, minúsculas cabeças de alfinete. Na estreita via arduamente esculpida na dura natureza cabe apenas um jipe, embora seja de dois sentidos. Uma vez ou outra, o trilho alarga-se (literalmente) uns centímetros para que duas viaturas ensaiem uma dança que permita ao par trocar de posição – um deles fica, obrigatoriamente, em posição bem oblíqua – e cada um seguir o seu caminho.
Há ferro retorcido detido no fundo da colina, uns 300 metros abaixo. “Um colega apressado”, comenta o motorista, sem mudar a sua expressão séria.
Afinal, isto até é divertido. E se há lugares que nos fazem sentir pequenos, minúsculos, esta que muitos consideram ser a mais perigosa estrada do mundo é um deles; indubitavelmente.
Em cerca de uma paciente hora vamos subindo uns quantos quilómetros em direção ao céu, sem disfarçar verdadeiro espanto pelo sonho de um homem – o brigadeiro M. Aslam Khan, oficial militar paquistanês, com a ajuda da comunidade local – aliado à necessidade dos habitantes de Tato, aldeia muito próxima ao início da ascensão, agora a pé, até Fairy Meadows. Aliás, os seus moradores são os responsáveis pela manutenção da via, testemunho da audácia humana, e são os únicos autorizados a operar o percurso que os liga à ponte de Raikot, onde tudo começa.
A música, tradicional e sem instrumentos, somente cantada, que vai sendo entoada no rádio, transporta-nos para um nível mais profundo de imersão nesta região mais remota do gigantesco país, na qual começam a convergir novamente alguns forasteiros.
“Antes do 11 de setembro [atentado às Torres Gémeas, em Nova Iorque, EUA] havia muito turismo, mas depois parou abruptamente. Pouco ajudou o facto de Osama Bin Laden se ter refugiado nas nossas montanhas. O nosso país foi vendido ao mundo como um antro para o terrorismo e sofremos muito com isso…”, conta-me Ali.
O condutor do meu Willy, veículo militar da II Guerra Mundial encantadoramente recuperado, não é dos mais experientes, tem ainda ar de “tenrinho”. Mas em nenhum momento lhe sinto insegurança, a mão a fugir. Quase mecanicamente, vai fazendo o seu trabalho, perante os olhares de crescente maravilha no rosto da carga que transporta, nomeadamente os três passageiros. De um lado, parede de rocha firme; do outro, o vazio…
Quando Tato finalmente aparece no horizonte, incrustado na montanha, imagino o fantástico que deve ser a experiência de poder usufruir de uns dias com a comunidade – de, lentamente, ir ganhando a sua confiança. Sábia, não é propriamente acolhedora com os visitantes, ao contrário da enorme afabilidade dos paquistaneses de todas as latitudes.
Fim de trajeto para os veículos motorizados – início para quem desce –, é hora de ensaiar uma caminhada que os mais ágeis fazem em cerca de três horas. E não é exatamente um passeio: se até aqui testámos os medos do abismo, agora é a pura resistência física que, a certo ponto, se vai transformando igualmente em mental.
Se as viaturas são todas iguais no modelo – diferem no garrido da cor –, as pessoas que aqui operam no turismo também não são muito distintas em termos de aspeto. O típico traje deste Norte – kameez (túnica longa até aos joelhos, com corte lateral) e/ou shalwar (calças largas, folgadas na cintura e estreitas nos tornozelos), o inevitável sadhri (colete) e o imperdível pakol (chapéu de lã redondo, tradicional do vale de Hunza) – é assumido por todos. Bem como a barba que Bin Laden usava.
No vaivém de pessoas e Willys, há tempo para uns dedos de conversa, alguns conselhos e desejos de boa sorte. Pés ao caminho, não são precisos muitos minutos para nos começarmos a questionar sobre se esta subida até ao céu, afinal, não tem limites. O suor rapidamente toma conta do corpo e a aventura parece que não vai ter fim. Um troço plano, uma pequena descida, uma sombra, qualquer coisa é bem-vinda para apaziguar este esforço… mas é difícil ter sorte. Serão somente uns cinco quilómetros.
Há aldeãos com uma equipa de mulas e cavalos para nos levar na via-sacra até Fairy Meadows, 3300 metros acima do nível do mar, mas não é a mesma coisa: há o respeito pelos animais. Não é assim que quero chegar.
O percurso não é solitário. São poucos os visitantes, mas os habitantes, habituados a estas altitudes, exibem expressões menos esforçadas e mais sorridentes. Bom, nem todos. Não o oposto, de antipatia, mas de sofrimento. Há quem transporte, às costas, enormes peças para as habitações que se estão a construir no topo da montanha. Incluindo um ou outro carregador com vidros pesadíssimos de dimensões impensáveis. Arrastam-se penosamente pela encosta e as obrigatórias paragens, sucessivas, para respirar e descansar tornam-se desafios logísticos complicados. Por vezes, demoram mais do que um dia a fazer o percurso.
De mãos ásperas e rosto sôfrego, Rashid transporta uns 80 quilos, movido pela “força de Alá”. A recompensa? Três euros… E é assim que abafa qualquer espécie de queixume, amarrando-o entre os dentes cerrados, sempre que surge vontade de vacilar.
As tonalidades do panorama vão mudando. Os verdes outrora lá no topo já estão diante do nosso olhar. Já faltou (bem) mais e agora a fotografia é bem diferente, de áspera a deslumbrante, o melhor tónico para ganharmos asas num quadro em que percebemos haver vários picos para além dos 5000 metros de altura. No fim da subida de três a quatro horas, o corpo queixa-se, mas a alma agradece.
Atingir Fairy Meadows é uma sensação de concretização e a certeza de que, aparentemente, a aventura está apenas a começar. Um cenário muito distinto no povoado que nos levará ao sopé da mítica Nanga Parbat, a nona montanha mais alta do mundo.
O imenso prado espraia-se num deslumbrante verde, bordado a pequenos riachos de águas azul-turquesa. As infraestruturas de madeira, a dar resposta ao crescente turismo, pincelam a paisagem com gigantescos pinheiros, verdadeiros sentinelas ancestrais, guardiões do tempo. A primavera junta-lhes flores silvestres, que libertam fragrâncias de serenidade. Respiramos um perfume alpino…
Algumas crianças brincam com improvisados objetos do quotidiano familiar. Umas quantas já são pastoras, que ao fim do dia regressam à aldeia com os animais. A esta hora, podemos encontrar quem domine a arte do polo, um desporto que apaixona os paquistaneses, o talento do cavaleiro a ensaiar uma dança perfeita com o animal.
Afastando-nos uns minutos do povoado, ao entardecer podemos contemplar o sol que incendeia as neves do Nanga Parbat, tingindo-as de rosa e púrpura.
Com a luz a esvair-se, o aroma da lenha a arder oriundo das cabanas de madeira toma conta do ambiente, impregnando o crepúsculo de memórias do mais simples da vida. Há famílias em torno de fogueiras e convites para que estranhos se juntem…
Entretanto, um pequeno lago – ou um charco grande – permite imagens idílicas do reflexo da montanha diante de nós até que a noite toma conta de tudo, sob o mais puro e cristalino céu, uma estimulante tapeçaria de estrelas. O tempo parece realmente suspenso. E o desejo é que assim persista.
A madrugada não é meiga para quem não chega preparado: as construções, básicas, deixam penetrar todo o frio do exterior; o rugido dos ventos que varrem os desfiladeiros não ajuda na sensação térmica; não há alternativa a dormir completamente vestido, dentro da cama, com o máximo de cobertores que conseguirmos juntar.
Isto é terra que nos deixa na dúvida se é um mundo de humanos ou do divino. Sinto-me acima da Terra e a tocar o céu. A mais pura magia das intocadas montanhas do Paquistão.
Não cheira a flores, antes a resina de pinheiro-dos-himalaias e a humidade, agravada pelo intenso frio. Na cozinha, um café cuida do espírito, ou um fumegante leite de iaque em chávenas de barro. O pão é feito na lareira. Há boa conversa e não apetece partir.
Finalmente, mãos recolhidas nos bolsos, capuz ou barrete até aos olhos e avançar na gelada alvorada, entregando-nos ao serpentear do idílico trilho até à Montanha Assassina/NUA, quase sempre mergulhados na refrescante floresta.
Até nos depararmos com a majestosa silhueta do Nanga Parbat há um encantador passeio por profundos verdes e, com sorte, podemos cruzar-nos com uma raposa ou uma marmota, aqui mais protegidos das imponentes águias-douradas.
O imenso bloco de granito revestido a gelo, uma catedral geológica natural que abraça todo o horizonte, vai sendo palco da fúria de avalanches, como que lágrimas de gelo a desabar num choro a ecoar como distantes trovões.
Behal, de casas de madeira resinosa, é a povoação antes de se atingir o acampamento-base (planalto árido a 4200 metros de altitude, com o silêncio só quebrado por rajadas de vento ou pelo gelo que se desprende do Parbat), em caminho agora despido da floresta alpina e fértil em pedras instáveis, esculpidas pelo avanço do glaciar. Há pastores, cabras de chifres retorcidos e um ambiente mais rarefeito, no limite entre o fértil e o estéril. É tentador fotografar as mulheres locais, mas é proibido.
Majestoso e intocável, o Parbat é uma ameaçadora parede vertical de gelo azulado, com cicatrizes em forma de fissuras profundas. Por vezes, avalanches rugem como dragões. À noite, os seus dedos tocam a Via Láctea. Sem dúvida, guardião de uma beleza comovente. Quem puder, que se atreva a escalá-lo…



